Eu quero ser atendida sem ver tanta gente ferida, não vote na morte. Uma história real pelo SUS.

Por favor, não deixem os políticos aumentarem as mortes. Eu quero ser atendida sem ver tanta gente ferida. Quero ver a vida em alta. Não é possivel que a velocidade alta faça do seu voto nestas eleições o motivo pra eu voltar mais uma vez com o coração estraçalhado e de vez pensar que você só pode ser um apressado nas ruas, sem ver a vida passar. Você não pensa na sua vida se assim votar.

Se tiver com preguiça de ler, leia o texto em azul e negrito abaixo.

Pela primeira vez na vida estou sem plano de saúde e experimentei o SUS. Essa foi a minha 4ª cirurgia com anestesia geral da vida. Aos 16 foi o joelho* do Hospital Sírio Libanês, aos 30 laparoscopia*, depois veio o pulso quebrado numa queda de patins, São Luis Morumbi e por último, cotovelo quebrado no SUS, isso sem falar nos dois partos, Einstein e Pró-Matre mais peregrinações por cortes, quedas, estripulias desde Servidor Público, passeios nos corredores do Emilio Ribas, sim, já aprontei muito e sou filha de médico. Aquele médico que usa a pasta preta com estetoscópio e faz visitas em casa de pacientes… ahh que saudades do meu pai exercendo. Nessa época levantava a mão na sala de aula pra responder daquelas perguntas constrangeroras da tia (professora dos anos 80)

-Qual a profissão do seu pai e da sua mãe?

Respondia rapidamente com peito cheio de orgulho: meu pai é médico, médico pediatra e falava baixinho, minha mãe… é nada. A professora insistia e gritava: como??Não ouvi. E eu repetia, até que minha mente transbordava algo como prendas domésticas. Af, sem conseguir entender oque era prendas e pra que tanta pressão. Eu tinha vergonha. As mães eram motoristas em seus carrões, minha mãe era pedestre e cuidava da gente, dona de casa. Que louco. Hoje, aliás, faz tempo, eu conto com tanto orgulho esse pedestrianismo. E como me orgulho de ter caminhado tanto a Rua Augusta pra cima e pra baixo só pra olhar no fim do dia a vitrine da loja de brinquedos Piá. Tempos de criança.

Voltando ao SUS

Preciso contar, desabafar, explicar um pouco do que senti vi e presenciei. Vou tentar com meu jeito de escrever e dizer, juro. Não vou desviar ou viajar, é real. Vou me esforçar e resumir ,pro texto ficar objetivo e rápido. O assunto é importante e necessário.

DIA 1

Quando cheguei chorando de dor na emergência do IOT, Instituto de Ortopedia do HC (Hospital das Clínicas) fui prontamente atendida por um médico cubano, colombiano, esqueci, mas era algo “ano” e com rápido atendimento, soro, medicação, raio X, durou 4 horas e não foi detectado a quebra, isso acontece nos 3 a 7 primeiros dias do choque, da pancada. Ao meu lado tinha um tendente do Uber, estava não muito bem, tinha uma fratura de fêmur, havia sido atropelado por um motorista de ônibus quando ia para o trabalho. Depois de duas horas chegou Fábio, foi moto, caiu, um motorista de carro em alta velocidade e na contramão pegou ele de frente, parecia grave. Conversei com os dois, fiz aquela amizade instantânea, voltei pra casa com o coração partido.

DIA 2

Quando retornei ao IOT HC SUS, fiquei lá por mais de 10 horas e após dois Raio X, uma tomografia, três avaliações das equipes especializadas, detectaram a quebra de dois ossos e fragmentos que impediam de movimentar o cotovelo, já estava travado. Nestas horas intermináveis cativei umas 12 amizades instantâneas. Um garoto caiu da laje em busca de pokemons, um garoto nasceu com probleminha no pé e fazia peregrinacão de Barueri até o HC em seus 9 anos de vida, sempre. Enquanto tudo isso rolava, muitas ambulâncias do SAMU entravam e saiam, com pessoas bem machucadas, estrupiadas, muito feridas e pelos corredores, entre exames e consultas, espiava e ouvia os tais “acidentes” do dia, com muitas fraturas, mortes….parecia uma guerra silenciosa e nós, na sala de espera, como uma platéia ferida e angustiada a espera de uma brecha entre um ferido por caminhão e outro pelo motorista da SUV, pelo impacto forte de um motor a mais de 60 Km/h ( o impacto a 30Km/h, se houver, não estraçalha assim). Neste dia meu coração estava estraçalhado. Voltei pra casa com uma data para retornar e passar no especialista em cotovelo e, quem sabe, definir a data da cirurgia.

DIA 3

Doutor, doutor, já estava aflita neste 3º dia e queria saber se era caso cirúrgico. Onde deixo minhas filhas? pensava. Preciso fazer a janta antes da internação. Elas precisam de mim doutor. Com muita atenção e espera de mais de 12 horas, fiz mais dois raio X e co histórico de mais 3 e tomo o doutor finalmente diz: Vamos marcar sua cirurgia e possivelmente será remoção dos fragmentos para liberar o movimento do cotovelo. Neste dia vi tantas ambulâncias chegando, tantos assuntos em corredores e não tive surpresa ao saber que tinha um atropelado, outro arremessado pela roda do caminhão….Voltei pra casa com a seguinte orientação:

Você vai chegar no dia 31/08 as 5h da manhã de banho tomado, sem lavar o cabelo, sem esmalte, jejum desde 22h e aguardar o horário da cirurgia e, a partir da 7 pode acontecer sua internação e cirirgia…. tudo depende do número de fraturas expostas que chegar no dia, podendo até ser cancelada por falta de leito para internação e centro cirúrgico.

DIa 4

Cheguei as 5h, jejum e orientações feitas. Uma espera de 10 horas entre enfermaria e leito, 26 b, as 15h chegou Jovane, caraaaaaaaaa*%#@ que cara incrível. Valeu a espera e te conhecer. Esse cara me levou pro centro cirurgico como se fosse meu conhecido a anos. Oque ele está fazendo ali, senão por amor. Me deixou tão bem e tranquilia, resumindo, preciso reencontrá-lo pra falar. Entre ele e outros da equipe, depois tenho mais história pra contar.

20h, voltei da cirurgia, e ganhei essa sopinha deliciosa de legumes  captura-de-tela-2016-09-12-as-10-25-35 No meu quarto estava JS (não deixo explicito, ela é conhecida). Pra entender, os leitos do SUS para quem não tem plano de saúde, são duplos e não individuais. O dinheiro compra a solidão dos que podem pagar e não perceber tudo que vi, senti e vivi pra crescer mais. Valeu, não posso lamentar e sim acrescentar e preciso contar pra vcs os números também. Vou tentar deixar bem claro, mas antes, preciso falar de JS. Uma menina da capa. Uma menina com os dois braços fraturados a caminho da cirurgia e ela contou: estava de moto e o motorista do ônibus me pegou, minha cabeça ficou a centímetros da roda”. Ela contou isso com os dois braços imobilizados, muita dor e pouco brilho. Mais uma vítima daquela guerra que falei no DIA 2.

 

Pra terminar, antes dos números, não podemos falar GUERRA. Os dois lados não estão lutando, lembrou um amigo outro dia. Falei GUERRA pra lembrar que somos vítimas da espera, da fila, e os médicos são os heróis e por amor, por amor sim, estão lá. Tem muito FERIDO e não tem MÉDICO pra tudo isso.  A conta não fecha.

Meus números:

velocidade > 60Km/h * =  +10 vítimas chegando no IOT /dia para 12 médicos por plantão

velocidade < 60Km/h * = -10 vítimas chegando no IOT /dia para 12 médicos por plantão

Entenda que existe médico, existe atendimento e existe equipamento, no IOT. Não existe a capacidade de receber tanta gente atropelada pela violência da velocidade alta, isso sem falar nos custos. (hoje não quero falar de custo, quero falar de VIDA)

Esse texto eu escrevi com o objetivo de:

  • explicar a ALTA VELOCIDADE
  • entender as pessoas que xingam o SUS sem nunca ter usado
  • tentar entender a lotação dos hospitais públicos

Estive num micro mundo IOT, hoje tenho retorno no RAIOX, amanhã no médico e quarta na fisio. Vou voltar mais três dias lá, vou sentir o coração partir, vou ver o SAMU chegar.

Por favor, não deixem os políticos aumentarem as mortes. Eu quero ser atendida sem ver tanta gente ferida. Quero ver a vida em alta. Não é possivel que a velocidade alta faça do seu voto nestas eleições o motivo pra eu voltar mais uma vez com o coração estraçalhado e de vez pensar que você só pode ser um apressado nas ruas, sem ver a vida passar. Você não pensa na sua vida se assim votar.

(esquerda) Corredores lotados no PS Geral, onde fui fazer tomografia (DIR alto) Varanda do leito 26b (DIR baixo) fiquei por mais de 26 horas nesta sala a espera de atendimento

(esquerda) Corredores lotados no PS Geral, onde fui fazer tomografia (DIR alto) Varanda do leito 26b (DIR baixo) fiquei por mais de 26 horas nesta sala a espera de atendimento

TEXTO EXTRA: agradecimentos especiais as 4 pessoas que cuidaram de mim no HC e minhas filhas queridas e meu pai. Les, minha amiga, chegou comigo e ficou até as 15h, quando minha mãe chegou e ficou até as 21h, quando Dri Marmo tomou conta da situação enquanto meu braço bloqueado estava, com carinho ela me acalmava, sua voz doce, passamos a noite, ela precisou is as 10h, querida. Na saída, Cris foi me buscar, retirou os remédios no porão. Minhas filhas e pai, tão carinhosamente foi tudo perfeito. Gratidão eterna.

NÃO DEFENDO PARTIDO POLÍTICO. DEFENDO A VIDA.

captura-de-tela-2016-09-12-as-10-25-02

Eu e Dri após noite juntas

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Eu, com braço bloqueado

*laparoscopia  substantivo feminino
med exame endoscópico da cavidade abdominal e de seu conteúdo, realizado sob anestesia geral e após insuflação do abdome com um gás inerte (ger. protóxido de nitrogênio).

*joelho  fiz cirurgia pra fixar a rótula, hoje patela. Minha amiga Priscila companheira, estava lá comigo. Nunca mais esqueci.

velocidade > 60Km/h * = velocidade maior que 60Km/h (> = maior que)

velocidade > 60Km/h * = velocidade menor que 60Km/h (< = menor que)

Texto: Silvia, mãe da Nina e da Bia

 

motivadores:

Captura de Tela 2015-09-13 às 10.34.20 Las Magrelas  bike anjo Sampa Pe quadrado  logo-bce46fba8e10112b7cf38bcd469ffa5f  Captura de Tela 2016-07-13 às 11.03.17  va de bike

Silvia Ballan, mãe,ciclista, bike anjo,  bikerrepórter do Instituto CicloBR e colaboradora do Bike é Legal da Renata Falzoni, mãe de Nina, 7, Bia, 16, acredita na educação das crianças em espaços públicos, na rua, na troca … As crianças e adultos são capazes e possuem habilidades para descobrir problemas e solucioná-los de maneira consciente quando conhecem e vivem a cidade.

“Se queremos uma pessoa melhor, cuidamos da criança. Se queremos um cidadão, levamos os pequenos a viver a cidade”, afirma Silvia.

UM DOS NOSSOS OBJETIVOS: mostrar que mãe, filhos, mulher, familias inteiras podem e devem caminhar e pedalar pela cidade. Não é necessário usar roupas específicas ou ser atleta. 

Quer apoiar o blog? Envie email para: silviaenina@gmail.com

Este blog nunca recebeu apoio financeiro

Apoio e doação:

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